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domingo, 19 de agosto de 2018

«plantas» («o extraordinário mundo introspectivo das ») - Rosa Oliveira

- 9 e 30 do 10.º (de 19) dia no Rugido; R. invadido por 3 famílias de Italianos...

- um dos cinco textos de R. O. publicados na última C.-L.:

o extraordinário mundo introspectivo das plantas

morrem mudamente
estão doentes e não gritam
zangam-se umas com as outras
e connosco
e não esbracejam
e renascem em pouco tempo
se lhes dermos um pouco da nossa pequena
mortal terra mortal

cobrem os crimes humanos
esquecidos na floresta do nosso esquecimento
precisam de água como nós
em certas estações do ano e em certos climas
embriagam-se afectivamente e descaem
nos nossos ombros
acompanham a música e o silêncio
caem    soçobram    levantam-se
tudo isto sem saírem do mesmo sítio

as plantas podem viver dentro das nossas unhas
detrás dos nossos olhos
levam tiros frágeis
disparados pelos nossos
neuróticos impulsos
compassados como a valsa
de mil tempos
as plantas respiram para dentro de nós
usam itálicos como confetis
inventam inimigos
prosseguem

sou a pessoa que contempla as plantas
e não gosta de animais
os tais animais muito, muito lentos que são as plantas

Rosa Oliveira, Colóquio-Letras, n.º 198, Maio/Agosto 2018, p. 180

quarta-feira, 5 de julho de 2017

«As viagens» - Tolentino Mendonça

[ontem, das 11 às 13: REUN. - das que «parecem contar» (DIST. de Níveis para 1718...); 
enquanto não começava, foi-se relendo o último livro de J. T. M.: Teoria da FRonteira

As viagens

Não ames viagens que reduzam a estranheza
não te desloques a lugares 
dos quais já existam relatos
a tradição não diz muito afinal
e os livros só remotamente indiciam o espanto
em que se entra de olhos fechados

a terra é desde sempre incógnita e perplexa
e se regressares a ela escutarás
o que não ouviste 
da primeira vez

José Tolentino Mendonça, Teoria da Fronteira, Assírio 6 Alvim, 2017 (Maio), p. 20
[«livro do dia», TSF, de 7 de Junho - leitura de «Compaixão», da p. 18)

domingo, 28 de agosto de 2016

«Perecível» (Meninas) - Maria Teresa Horta

[V. Lembra-se de ter lido, «dispersivamente», ao longo de muito tempo, por 2015, esta obra de M. T. H., de Nov. de 2014; agora relida no Rugido, em dois dias «contínuos»...]

Recorte de uma das Narrativas, designadas como «Contos»:
[...]
– Onde está a carta que a tua mãe te mandou?
E o seu rosto era de desvario absurdo, absoluto.
A sua voz de estilhaço feria, a sua voz de punhal cortava. Sangrei um pouco por dentro, mas continuei calada.
– Onde escondeste a carta da tua mãe?
Primeiro escondera-a no fundo de um buraco, por baixo de uma das faias, e pusera-lhe uma laje por cima como se se tratasse de uma campa rasa. Supersticiosa, tirei-a e fui dissimulá-la entre o enredo das hastes espinhosas de rosas púrpuras de almíscar, numa das áleas ao fundo do jardim. Mas com medo de que alguém mesmos aí a descobrisse, no seu fundo de húmus e farpas,
comera-a
Era como se não me lembrasse, mas soubesse que a tinha comido. Devagar, engolindo cada um dos pedaços, todas as letras que ela me escrevera. Fora a minha primeira carta de amor, e comi-a. Como se a incorporasse.
– Onde escondeste a carta que a tua mãe te mandou?
– Qual carta?
Sumida, uma voz sumida que soltei trémula fazendo frente à fúria enorme e descontrolada da mulher do meu avô, madrasta que nem era minha e sim da minha mãe, mas que transferira para mim o seu ódio resguardado.
– Estúpida rapariga! Ingrata! A defender uma maluca, uma leviana, que nem sequer lhe liga. Ela deixou-te, largou-te! Ela abandonou-te!

[...]   [transcrição que não respeita os «espaços gráficos»] 

Maria Teresa Horta, «Perecível», in Meninas, D. Quixote, 2014, p, 110

[ver  entrevista, de Dez. de 2014, no DN Magazine]

[enttrevista, de 05 - 08 - 2017, ao Expresso]

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Trágico-Mar[itima - Ana Margarida de Carvalho

- saído em Abril, V. esperou que as INFO confirmassem...- num C. de T.,  J. J, (Chefe de Gráf.) referiu que o tinha recebido de oferta e que...

- leitura iniciada na sexta, 5 - atingida a página 171 - «deslumbrantes», as primeiras 46, de facto..., tal como acentua J. M. Silva.......................

Recorte>
[...] E ainda há a mãe dela, mulher adunca, sempre com a aflição nas saias e o credo nos lábios chupados de sofreguidão. Os passos que retorquem no sobrado, acelerados, a querer saber, a apelar ao capitão, solícita, requer, ordena, tem uma espécie de séquito que a escolta, de trás para diante, eles é que parecem as ondas ausentes. O capelão que lhe ampara os receios, vacilantes, e lhe aplaca a alma.
            ora pro nobis
e a ama negra que lhe amamenta e carrega o filho, criança adorada, loura e rosada, mimada em desvelos pela mãe desassossegada, que o atavia em atilhos e rendados, lhe enrola o dedo nos caracolinhos, que me reza a mim não sei quantas ave-marias, não vá o menino, que já gatinha, fugir-lhe da alcofa e cair-lhe do barco, não vá a criança tão esguia sumir-se entre as grades do porão e ser devorada viva pelas centenas de braços lá de baixo, que ondulam, sargaços sombrios, não vá o catraio engalfinhar as perninhas, tão tenras, roliças, nos cabos ensebados dos marinheiros e joguem borda fora o anjinho com os desperd[icios e ouras imundícies. Má raça do barco, vem cheio de moléstias. E saem-lhe da boca impropérios, alfinetadas, desabafos, que o capelão vem emoldurando de orações, temeroso de que eles me cheguem a mim, padroeira do navio, já que não sou salva-vidas, em caso de naufrágio, destinaram-me, porém, a poupar as almas. [...] E a mulher faz que sim, pede a benção, senhor padre, mas não, não aguenta tanta podridão, queixa-se, lamenta-se, volta a benzer-se, e o rumor dos de lá de baixo, e o cheiro, que não há vento que o desvie das nossas narinas, maldita travessia, aziaga calmaria, mar de belzebu, capitão alambazado, que só tem olhos para os cavalos, animais do demo, só puxam o demónio, perdão, senhor padre, a sua bençãoo três vezes e mais uma para o menino, [...]


Ana Margarida de Carvaho, Não se pode morar nos olhos de um gato. Teorema, 2016, pp. 18-
- depoimento de Teresa Calçada, a 13  de Julho de 2018, no À volta dos livros, da Antena 1

sábado, 25 de junho de 2016

BREXIT - «Os ingleses... (fumam cachimbo)» - almada

Recortes da parte inicial do poema de almada, de 1919: 


OS INGLESES FUMAM CACHIMBO
Ao doutor
António José d’Almeida
Allons enfants de la Patrie!
Seeing Paris,
Os ingleses fumam cachimbo!
― Fumam de dia,
Fumam de noite ―
L’homme à la pipe: englishman!

 [...]
 Os ingleses fumam cachimbo,
É natural!
As inglesas são de âmbar
E os ingleses fumam cachimbo!
[...]

As inglesas são de cautchouc,
São de Inglaterra!
O meu avô fumava cachimbo
E não era inglês!

Era uma vez
Um rei escocês
Que fumava cachimbo!
Era de outra vez
Um rei inglês
Que não fumava cachimbo!

Conheci uma preta
Meio preta
Que fumava cachimbo
Casada com um inglês
Que não fumava cachimbo!

Tinha três filhas,
Três maravilhas,
Eram cachimbos,
Eram três cachimbos,
Cada uma era um cachimbo!

[...]
Tanto a preta como o inglês
Tinham cara de cachimbos,
E as filhas eram cachimbos,
Ainda com o preço da loja!
Uma custava um tostão,
A outra [...]

Apesar de tudo,
Os ingleses fumam cachimbo
E bebem whisky,
E dizem All right,
E dizem good bye,
E dizem asneiras!
[...]
Escrito em Paris em 1919

Transcrito das pp. 100-103 do I vol. da Edição das «Obras Completas», da I. N. - C. da M., 1985



terça-feira, 18 de agosto de 2015

«Terra navegável» - Armando Silva Carvalho

- sendo o único livro de P. que veio na mala do Rugido, tem sido várias vezes lido...; um dos cerca de 53 poemas:...

TERRA NAVEGÁVEL

Vamos pela tarde à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.
Transporto no coração a contagem dos passos
e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca.
Será sempre preciso navegar em terra,
agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos.
Cada palavra é um remo, cada abraço perdido
uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.
A tarde recolheu os últimos sinais da divindade.
Avançamos à procura da água
prometida.

Confundimos as ondas com os limos da garganta,

as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.

Armando Silva Carvalho, A sombra do mar, Assírio & Alvim, 2015 (junho), p. 50

domingo, 26 de julho de 2015

«A luz pedregosa» - Carlos de Oliveira, por Silvina Rodrigues Lopes

[poema de Carlos de Oliveira, lido por S. R. L., a «iluminar» o ensaio «abaixo» referenciado]
Casa

A luz de carbureto
que ferve no gasómetro do pátio
e envolve este soneto
num cheiro de laranjas com sulfato
(as asas pantanosas dos insectos
reflectidas nos olhos, no olfacto,
a febre a consumir o meu retrato,
a ameaçar os tectos
da casa que também adoecia
ao contágio da lama
e enfim morria
nos alicerces como numa cama)
a pedregosa luz da poesia
que reconstrói a casa, chama a chama.

Carlos de Oliveira

«A pedregosa luz  da poesia» (na série «A luz como meio e limite») - ensaio de Silvina Rodrigues Lopes, Público, Revista «2», p. 29         ou         AQUI

terça-feira, 7 de julho de 2015

domingo, 28 de junho de 2015

Morte do Cisne - Teresa Veiga

[dos Leitores do Palácio, o Arq. A. F. - Mestre de G. D. -  mantém «poder aquisitivo...»; C. tem beneficiado dos empréstimos desse leitor de Teresa Veiga - pseud. de (??? = H. H.?...]

- desta vez, C. adquiriu o mais recente de T.V. (após 7 anos de...) e vai para a sétima Narrativa (de 11)

Recorte inicial da terceira:
      
          Kitty,  a bailarina do Wonderbar, estava há sete dias barricada no quarto, rodeada de grande silêncio, voluntariamente incomunicável.
     A mãe levava-lhe um tabuleiro com comida às horas das refeições. Arranhava na porta (já perdera a disposição para tamborilar) e largava o tabuleiro num carrinho de chá rolante que, desde que aquilo acontecera, era o elo de ligação entre os dois mundos.
         O cheiro quente da sopa acabada de cozinhar, do arroz de polvo ou outra iguaria que a mãe escolhia a dedo na tentativa de a prender à vida, o perfume violento dos biscoitos com as suas baforadas açucaradas  a essências de canela e de baunilha, invadiam o pequeno quarto e incorporavam-se no ar parco, saturado de monóxido de carbono, [...]

«A morte do cisne», in Teresa Veiga, Gente melancolicamente louca, 2015, Tinta-da-china, p. 51


Imagem de artigo - «Contos exemplares portugueses», de Isabel Lucas, do Público:AQUI

Artigo do Observador - AQUI

Na p. da Editora - leitura de exc. por C. V. Marques: AQUI  (+ algumas páginas...)

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Barbeiros, I (ou «os perigos de andar de boca aberta») - Miguéis

[«pouca sorte» será a de quem teve que ler este texto para fins de «Eliminação de Excedentes» que ainda nem entraram no Armazém...]

[espaçadas eram as idas ao Barbeiro de C., então, D. ou N., pois eram «cortes quase de máquina Zero»; dois eram os barbeiros:
- o sr Manuel, magro ou seco, sóbria e polida figura,  na Calçada da Bica Grande - repleto aos sábados de manhã - que teve carreira muito, muito longa...;
- o sr Fernando, na Calçada Salvador Correia de Sá - onde D. nasceu... - rubicunda e sarcástica figura, sem piedade pelas crianças... (outras histórias...) ]

REcortes de Recorte de Miguéis:

       Entrámos numa mercearia, e ali fiquei muito tempo, especado entre as sacas de batatas e de arroz, a ouvir falar de doenças e mortes, de carestia da vida, de política e de outras atualidades, então como hoje, palpitantes: desconsolado e quase choroso, porque ninguém me deu uma bolacha Maria nem um pirolito.
          Havia algum tempo que os ares andavam turvos: falava-se de República e de Revolução. Diziam-se cobras e lagartos do Rei. [...]  Um novo pormenor, para mim de incalculáveis repercussões, vinha acrescentar-se agora ao Regicídio: da explicável confusão que se seguira ao atentado, algumas pessoas tinham saído mortas e feridas. Acontece que o barbeiro da Graça, súbdito leal de Suas Majestades, não quisera perder o ensejo de saudar à chegada a Real Família. No Terreiro do Paço, à passagem do magro e veloz cortejo, ele tinha aberto a boca para bradar «Viva El-Rei!» quando uma bala perdida, entrando-lhe pelo céu da mesma, lhe furou a base do crânio para sair pelo olho direito. Foi uma bala prodigiosamente acrobática, disso não resta dúvida nenhuma. Ignorante da Medicina Legal, ao ouvir estes relatos macabros e sugestivos,limitei-me a pensar com horror nos perigos de andar de boca aberta a dar «vivas», ainda que fosse à República, como era o meu costume.
      Saí da mercearia acabrunhado, pela mão de minha mãe. Tinha confiado os meus virgens caracóis às mãos daquele barbeiro «talassa», e sentia-me agora um bocado órfão.


José Rodrigues. Miguéis, «Pouca Sorte com Barbeiros», in Léah e Outras Histórias, Lisboa, Estampa, 1987 [1.ª edição de 1958], pp. 104 e 105 (adaptado)

domingo, 15 de junho de 2014

Branco (O hospital e a praia) - por Sophia


O HOSPITAL E A PRAIA

E eu caminhei no hospital
Onde o branco é desolado e sujo
Onde o branco é a cor que fica onde não há cor
E onde a luz é cinza

E eu caminhei nas praias e nos campos
O azul do mar e o roxo da distância
Enrolei-os em redor do meu pescoço
Caminhei na praia quase livre como um deus

Não perguntei por ti à pedra meu Senhor
Nem me lembrei de ti bebendo o vento
O vento era vento e a pedra pedra
E isso inteiramente me bastava

E nos espaços da manhã marinha
Quase livre como um deus eu caminhava

E todo o dia vivi como uma cega

Porém no hospital eu vi o rosto
Que não é pinheiral nem é rochedo
E vi a luz como cinza na parede
E vi a dor absurda e desmedida

Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, 1962, transcrito do II vol de Obra Poética, 4.ª ed. 1999, p. 138

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

«E o resto não digo...» (Natália)

- [de Janeiro de 75 a Abril de 78, S., então D., «mourejou» na SMT, no  52 da Rodrigues Sampaio - a seguir, era a B.S.;]
«E o resto não digo»

- F. Dacosta refere amiúde que «quando [N.] regressava do Botequim ficava a conversar com marginais e prostitutas». [...]
«E o resto não digo»
 
- apesar do Género «C. de Amigo»  ter sido arredado  dos PROG ESC, quando pode, S. «introduz» N. como estudiosa e «criativa dialogante» com o mesmo.
- Estrofe inicial de um dos poemas que mais vezes «mostra» no Quadrado sem PLateia:
 
Ledo o meu amigo foi caçar no monte,
Disseram-me as aves que o esperasse na fonte.
Jovial o vento levou-me o vestido,
Soltou-me o cabelo. E o resto não digo...
[...]
Natália Correia, Alegram-se as velhas amigas em novos cantares de amigo , V , transcrito de O sol nas noites e o luar nos dias, II, Projornal, 1993, p. 420
 
 

terça-feira, 30 de julho de 2013

Maria Teresa Horta + Ana Luísa Amaral + Graça Martins

[«Quintas de Leitura», Porto, 11 de Julho de 2013]

Vídeo da sessão em:
http://www.youtube.com/watch?v=ya9K_fkpfoo

- ver, também, no Blogue de Graça Martins + «diálogos plásticos» com poemas de M. T. H. - «entrada» de 29 de Julho :           AQUI



 

quarta-feira, 10 de julho de 2013

«Há uma hora certa» - Cesariny + «Os poetas»

a) muito recente, o 2.º disco do projeto «Os poetas» - Rodrigo Leão e C.a
b) sempre atenta, A. Eus roteirizou o poema de Cesariny, desta vez,
na voz de Miguerl Borges:

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=oXMVojCbxHY

terça-feira, 11 de junho de 2013

«Fim de tarde» - Golgona Anghel

[vem aí, o fim de tarde; foram os CTs mais «rápidos» da história do Paraíso  -  T.  lê o último livro de Golgona Anghel - hoje, o  adequado  para tal dia de hoje]

VOU PASSANDO ÀS CAMBALHOTAS POR ESTE FIM DE TARDE
como um dúvida à procura do seu ângulo recto.

Organizo milhares de peças de puzzle, 
reconstruindo mundos perdidos
com a imagem virada para baixo.
Transformo as soluções em enigmas.
Desloco eras,
reavivo vulcões, 
erijo à volta de um ar de mamas,
escolas de arquitectura,
histórias de sobrevivência,
bocas secas,
dentaduras postiças.

Do armário, chega-me
como um hieróglifo sonoro de uma dor remota,
o assobio intermitente 
de um rato.
Nada nos une, penso, 
a não ser esta janela falsa
na câmara de gás.
Passo a mão pela frente molhada,
mudo, à pressa, 
os lençóis à ilusão
e fico, outra vez, à espreita.
Seria tanto mais fácil esperar pela eternidade
se, ao menos, houvesse alguma mini no frigorífico.

Golgona  Anghel,  Como uma flor de plástico na montra de um talho,
Lisboa , Assírio & Alvim, 2013, pp. 55, 56

  

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

APAGA - APAGA - Almada

[vai fechar a Casa de Verão - este «Peri» - antes do próximo «apagar» - relembra-se, para eventuais recém-chegados, o Recorte Inicial do Mote destas «brincadeiras»]


APAGA APAGA

 apaga  apaga

                                                           risca  risca

                                                           não  houve

                                                           nega  nega

                                                 quando for eu digo

                                                 não te percas de vista

                                    há uma cor que não vem nas cores

                           necessito de multidões para me encontrar

                                               sozinho sou multidões

[...]
 
José de Almada Negreiros (1893 - 1970)

 [transcrito da edição Obras completas, IN / CM, Vol. I – Poesia, 1985]

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O homem - Amadeu Baptista

[Acelerar as Leituras é o Caminho para alterar a falta de ritmo das semanas anteriores]

O homem é, antes de mais, criança.
Tem olhos para ver e sabe ouvir
tudo o que se agiganta sobre as casas,
a chama da candeia sobre a mesa e as sombras

que iluminam a cal da sua enxerga vertical.
Com dois paus repercute o horizonte
que o chama, sendo que é certo que observa tudo
com predestinada invenção, a cama diminuta

em que se deita, o prato de alumínio de que recolhe
uma fracção de pão, o resplendor de uma camisa
que rescende a lavado, as árvores da ribeira,

além de uma miríade de segredos que invectivam
a que seja veloz a aprendizagem e lenta
a descoberta

Amadeu Baptista

(in Atlas das Circunsdtâcias. Póvoa de Santo Adrião, Lua de Marfim, 2012)

[Respigado do Blogue do Autor]