sexta-feira, 24 de julho de 2026

«Que Nome gostaria de lhe dar?» (Michela Murgia)

 - [30.º Dia; após a «Onda de Calor», dias abaixo dos 30 graus, até agora...; R. pensa em regressar a Lx...]; [de momento, um livro de contos, da autora de «A acabadora», 2009];

RECORTE(s):
  [...] Tinha espreitado a folha sobre a mesa, e a indicação do diagnóstico estava escrita em cima, lapidar, algo que dez anos antes apenas teria sido uma sentença de morte rápida. Carcinoma renal no estádio IV.
    [...] de repente, tomou consciência do facto de o médico nunca ter nomeado a doença.
     - A minha irmã está ali fora, doutor, e tenho outras pessoas amigas. Quando me perguntarem o que tenho, o que lhe devo chamar? Não consigo dizer o que está escrito na folha.
   Fitaram-se. O médico suspirou, em seguida descontraiu os ombros, encostando-se à cadeira. Atrás da barreira de plástico transparente, o seu corpo parecia não ter espessura, como nas fotografias comprimidas em molduras de grampos. Quando falou, a ilusão da bidimensionalidade desapareceu.
     - Que nome gostaria de lhe dar? [...]

      Michela Murgia (1972-2023), «Expressão intraduzível» [conto de] O sentido da náusea [2023], 2025, pp. 14-15

domingo, 19 de julho de 2026

Rugido, 25.º dia + «O menino» (Aramburu)

  - domingo, 25.º dia da 3.ª Est.a de 26; o Clã J. J. já regressou a Casa...; voltarão dentro de 10, 12 dias, para as férias, finalmente...; ontem ida rápida ao Chão da General, para J. verificar «aonde vai o Corte das A.es; 

- Época Alta na Zmab e, no «AL-ZT», «(re)povoado», as «churrasqueiras de Varanda» estão na moda...; [R. vai ter que «desarvorar»....];

- lentamente tem avançado a leitura de «O Menino» [na p.188, de 219];

RECORTE(s):

    Dentro do possível, na distribuição de sepulturas o menino teve sorte. Mariaje apressa-se a corrigir o pai. Deves querer dizer que quem teve sorte foste tu. E Nicasio, depois de pensar uns instantes nisso, não encontra réplica possível e dá razão à filha.
     O caso é que calhou ao Nuco um nicho na terceira fila a contar do solo, junto de um dos  degraus da escada 

   Fernando Aramburu, O menino, 2025, p. 17

terça-feira, 7 de julho de 2026

Rugido, 13.º dia + «trezentos gramas de história» (Filipa Martins)

 - [só hoje concluída a narrativa de F. M.; na Zmab, a Onda de Calor durou «só» cinco dias...]

RECORTE(s):

    [...] Esperava alguma privacidade, mas o que conheço de mais parecido com a sala de consulta do  arquivo é a cantina do hospital. Encolho-me entre leitores que lambem os dedos antes de virar a página, dá-me nojo esta proximidade entre saliva e informação. Sinto um cotovelo a roçagar-me o casaco quando os documentos chegam, há quem espirre a centímetros, sentado ao meu lado o homem puxa o catarro e cospe para o lenço.[...]. 
    A pasta chega e não é pesada, talvez uns trezentos gramas de história. Todos me olham, até aqueles que não se viram para mim sei que me perscrutam - [...] questionam porque esperei meses e agora retardo o momento, porque não abro finalmente a pasta para confirmar que o Estado sempre soube mais sobre a minha mãe do que eu. [...]

                                 Filipa Martins, No meu fim está o meu começo, p. 163

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Rugido + «era assim que todos nasciam» (Filipa Martins)

 - 1.º Dia da 3.ª E. no Rugido - Pausa nas «Ondas de Calor»; Largo tranquilo, pois a Padaria ainda não (re)abriu...;

- RECORTE(s) do livro de Filipa Martins (uma das 3 aquis. da feira, na manhã de  domingo, 14); [atingida a p. 113 de 230]:

    [...] Eu tinha seis anos quando ajudei uma criança a nascer. Um rapaz, a mãe chamou-lhe Manuel. Era eu, a mãe e uma parteira cega, debruçadas sobre um alguidar [...]. A mãe estava de cócoras, a respirar com urros secos e a parteira puxava por uns pés pequeninos e arroxeados, dizendo: «Não virou, o malvado.»  Fazia o gesto das lavadeiras a arrancarem da água os lençóis encharcados, os tendões dos braços e do pescoço aflorados como raízes velhas pelo esforço. A mim, cabia-me torcer um desperdício de flanela e limpar o rosto da mãe do suor, mas julgo que levei a maior parte do tempo paralisada pelo que via. [...] Afinal era assim que todos nasciam, nus e enfiados em sangue e esterco? [...]

                                 Filipa Martins, No meu fim está o meu começo, p. 20

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O Império do pequeno ecrã

 - «longínquo» Prof.al da Área, D. não perde ocasião para observar e/ou avaliar...

- cerca das 10 e 30, Quiosque da Esplanada do Jardim cá do Bairro..; balcão repleto com a louça devolvida por anteriores...; sentada do lado de fora, ao Sol, «agarrada» ao TLL, quando inquirida sobre a ausência de oficiante, veio atender com «má ou ofendida Cara» e as exactas palavras:

- «não sou obrigada a estar de pé, à espera dos clientes»...;

- Claro que lhe deu logo razão, não havia mais que conversar, não é?

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Aquela altura do ano... (A. J. Gonçalves)

 [reabre o PERI] 
- fechar as janelas, na Noitada de S. António (amanhã) - por causa do cheiro «esturro-carbo-petrolino» e do barulho «turbo-alcoólico»... - ; restos de cheiro haverá no matinal passeio de dia 13...; Alfama, por António Jorge Gonçalves - DAQUI