- como sempre, dia de encerrar o PERI, para reabrir o ALPA; O livro das tréguas, de 2019, 22, só agora... [...]
Poema desse Livro:
RESERVA
Eu sei que algum dia a noite descerá mais cedo
do que o esperado, sei como é essa noite
mas não vou contar.
Sei como se descama o peixe e se lhe põe o sal na ferida
quando ele ainda se debate sob a água, sei bem
mas não vou contar.
Sei do momento em que a traça entra e pousa a larva
na página do livro, mas não vou contar. Sei, se sei, como
a amizade pode conter uma navalha no interior do bolo
de aniversário que se reparte.
Ou ainda como o amor pode arrastar consigo a pele
da serpente oferecida na sala perfumada, para nos enforcar.
Ao longo da vida desprendi pessoas dos braços dessa figueira
mas não vou contar.
Talvez exista entre o que eu sei e a existência viva
a distância de um salto mortal, que hoje mesmo um atleta
olímpico acaba de franquear, talvez alguém esteja, neste momento
a arvorar sobre essa meta uma bandeira - Chegámos a essa lua
somos salvos.
Não duvido, e assim está dado o meu benefício da dúvida.
Conheço a vantagem desse benefício. Sei do seu bálsamo
sobre o peixe, a página, o amor, o amigo.
E posso contar como se usa o bálsamo, como vertê-lo, mas sobre
a dúvida, a suspeita, o frio, sei alguma coisa e não vou contar.
Sei também que, se não anunciar a escuridão, a própria sombra
chamará o amanhecer, e não está escrito.
Lídia Jorge, O livro das tréguas, 2019, 2022, pp.72-73