domingo, 9 de setembro de 2012

O professor substituto (de História)

Recorte inicial do conto, inserido em  A palavra do mudo:

        À tardinha, quando Matias e a mulher bebericavam um chá envolvido em melancolia, queixando-se da miséria da classe média, da necessidade de terem de andar sempre com a roupa imaculada, do preço dos transportes, do aumento dos impostos, enfim, daquilo que os casais pobres falam à hora do crepúsculo, ouviram umas pancadas estrepitosas à porta e, quando foram abrir, irrompeu o doutor Valencia, de bengala na mão, num sufoco de colarinho apertado.
       - Meu querido Matias! Venho dar-te uma grande notícia! A partir de agora vais ser professor. Não digas já que não... tem calma! Como tenho de me ausentar do país por alguns meses, decidi confiar-te as minhas aulas de História. Não é um grande emprego e o vencimento não é extraordinário, mas é uma ocasião esplêndida para te iniciares no ensino. Com o passar do tempo, poderás conseguir um horário mais alargado, abrir-se-ão as portas de outras escolas, quem sabe se não consegues chegar à universidade... Isso depende de ti. Sempre tive uma grande confiança nas tuas capacidades. É injusto que um homem com os teus atributos, um homem culto, que fez estudos superiores, tenha de ganhar a vida como cobrador... Não senhor, não está certo, sou o primeiro a reconhecer. O teu lugar é a ensinar. Nem penses duas vezes. Posso ligar neste preciso momento ao director e dizer-lhe que já encontrei um substituto. Não há tempo a perder, está um táxi à minha espera... Dá-me um abraço, Matias, diz lá se não sou teu amigo!
        Antes que Matias tivesse tempo de emitir a sua opinião, o doutor Valencia já ligara para o colégio, falara com o director, abraçara o amigo pela quarta vez e partira como de de uma aparição se tratasse, sem squer tirar o chapéu.
      Durante alguns minutos, Matias fiicou pensativo, afagando a bela calva que fazia a delícia das crianças e o terror das donas de casa. [...]
 
«O professor substituto», in A palavra do mudo (1965), Julio Ramón Ribeyro (1929-1994), 2012, Porto, Edições Ahab, pp. 73-74