quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Trágico-Mar[itima - Ana Margarida de Carvalho

- saído em Abril, V. esperou que as INFO confirmassem...- num C. de T.,  J. J, (Chefe de Gráf.) referiu que o tinha recebido de oferta e que...

- leitura iniciada na sexta, 5 - atingida a página 171 - «deslumbrantes», as primeiras 46, de facto..., tal como acentua J. M. Silva.......................

Recorte>
[...] E ainda há a mãe dela, mulher adunca, sempre com a aflição nas saias e o credo nos lábios chupados de sofreguidão. Os passos que retorquem no sobrado, acelerados, a querer saber, a apelar ao capitão, solícita, requer, ordena, tem uma espécie de séquito que a escolta, de trás para diante, eles é que parecem as ondas ausentes. O capelão que lhe ampara os receios, vacilantes, e lhe aplaca a alma.
            ora pro nobis
e a ama negra que lhe amamenta e carrega o filho, criança adorada, loura e rosada, mimada em desvelos pela mãe desassossegada, que o atavia em atilhos e rendados, lhe enrola o dedo nos caracolinhos, que me reza a mim não sei quantas ave-marias, não vá o menino, que já gatinha, fugir-lhe da alcofa e cair-lhe do barco, não vá a criança tão esguia sumir-se entre as grades do porão e ser devorada viva pelas centenas de braços lá de baixo, que ondulam, sargaços sombrios, não vá o catraio engalfinhar as perninhas, tão tenras, roliças, nos cabos ensebados dos marinheiros e joguem borda fora o anjinho com os desperd[icios e ouras imundícies. Má raça do barco, vem cheio de moléstias. E saem-lhe da boca impropérios, alfinetadas, desabafos, que o capelão vem emoldurando de orações, temeroso de que eles me cheguem a mim, padroeira do navio, já que não sou salva-vidas, em caso de naufrágio, destinaram-me, porém, a poupar as almas. [...] E a mulher faz que sim, pede a benção, senhor padre, mas não, não aguenta tanta podridão, queixa-se, lamenta-se, volta a benzer-se, e o rumor dos de lá de baixo, e o cheiro, que não há vento que o desvie das nossas narinas, maldita travessia, aziaga calmaria, mar de belzebu, capitão alambazado, que só tem olhos para os cavalos, animais do demo, só puxam o demónio, perdão, senhor padre, a sua bençãoo três vezes e mais uma para o menino, [...]


Ana Margarida de Carvaho, Não se pode morar nos olhos de um gato. Teorema, 2016, pp. 18-