quinta-feira, 10 de setembro de 2026

«Reserva» (Lídia Jorge) + Fecho

 - como sempre, dia de encerrar o PERI, para reabrir o ALPA; O livro das tréguas, de 2019, 22, só agora... [...]
Poema desse Livro:

RESERVA

Eu sei que algum dia a noite descerá mais cedo
do que o esperado, sei como é essa noite
mas não vou contar.

Sei como se descama o peixe e se lhe põe o sal na ferida
quando ele ainda se debate sob a água, sei bem
mas não vou contar.

Sei do momento em que a traça entra e pousa a larva
na página do livro, mas não vou contar. Sei, se sei, como
a amizade pode conter uma navalha no interior do bolo
de aniversário que se reparte.

Ou ainda como o amor pode arrastar consigo a pele
da serpente oferecida na sala perfumada, para nos enforcar.
Ao longo da vida desprendi pessoas dos braços dessa figueira
mas não vou contar.

Talvez exista entre o que eu sei e a existência viva
a distância de um salto mortal, que hoje mesmo um atleta 
olímpico acaba de franquear, talvez alguém esteja, neste momento
a arvorar sobre essa meta uma bandeira - Chegámos a essa lua
somos salvos.

Não duvido, e assim está dado o meu benefício da dúvida.
Conheço a vantagem desse benefício. Sei do seu bálsamo
sobre o peixe, a página, o amor, o amigo.

E posso contar como se usa o bálsamo, como vertê-lo, mas sobre
a dúvida, a suspeita, o frio, sei alguma coisa e não vou contar.
Sei também que, se não anunciar a escuridão, a própria sombra
chamará o amanhecer, e não está escrito.

                Lídia Jorge, O livro das tréguas, 2019, 2022, pp.72-73

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Rugido + Steinbeck ( e Capra) na Rússia

 - 4.º dia da 4.ª Estadia de 2026 na Zmab, neste início, muito quente, de SET;  na Mala, além de recentes, MOBY DICK (Relógio D' Água, 92, vindo da estante de J.), para reler; também de J., Um diário russo, de Steinbeck - registo Escrito-Fotográfico;  ainda no princípio, mas já algumas referências parecem ser de «AGORA»;

RECORTE(s):

   Tínhamos começado a interessar-nos pelos motoristas que nos eram atribuídos. Na União Soviética, ser motorista não é um trabalho servil, antes uma função prestigiada e bem paga. São todos mecânicos, e quase todos foram militares - condutores de tanques ou pilotos. O nosso motorista em Kiev era um homem circunspecto, que tratava do automóvel como se ele fosse uma criança. Nenhum dos carros novos tinha ainda chegado de Moscovo, e ninguém sabia quando chegariam. [...] 
   Como carro, o nosso veículo em Kiev não era grande coisa, mas para aquecer água era magnífico. Parávamos de cinco em cinco quilómetros para encher o radiador com água de valas, riachos, poços, e o carro transformava-a rapidamente em vapor. O nosso motorista acabou por pendurar o balde no para-choques da frente, pronto a ser usado. 

                John Steinbeck, Um diário russo (com fotografias de Robert Capa), [1948], 2018, 2022, p. 100

[OUTRO];

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

«Quando os lobos uivam»

 - haverá 5 títulos de Aquilino na estante do ESCR.º (a oferecida pela avó M. F., cerca de 69...); há décadas que o terá lido...; hoje, a recente reimpressão (com ilustrações de disc.es de uma SEC.a) começou a ser lida no final da ida ao CH (tantos, tantos grupos turíst.os...; parece que se vêm meter na «boca do Lobo»...); 

[na Zmab, M. termina o 6.º VOL da saga «H. P.»..; J. diz que elas «estão encantadas» com o Rugido, nesta Estadia... + Eclipse, no dia 12... ]

quarta-feira, 29 de julho de 2026

«Figos frescos com presunto» OU «o melhor da vida»

- cerca das 9 e 30, esquina da P. P. C. - há muito que a senhora ali vende fruta, mas só este Verão...; [no final, R. «arrependeu-se» da conversa», porque...];

- R. começou por lhe perguntar de onde eram os grandes, suculentos, figos que ontem lhe comprara...; «do Algarve», respondeu, mas, quanto à Variedade...; e «porque não os há nos «Super»: respondeu que «não sabia, mas que, aí, a fruta era toda do Estrangeiro, sobretudo de Espanha»; agarrou num Melão e explicou por que é que «tinha de o vender mais caro...»; um «passante« intrometeu-se e a conversa derivou para o «elevado grau de açucar do Figo»; R. realçou «os figos com presunto», mas já não dava para mais...; [e «andor», que ainda há quem tenha que trabalhar....]

- Filipa Marins, Recorte de «Questionário pós-proustiano», P2 - Verão, de hoje

Gosta de cozinhar? Qual a sua maior especialidade?
Gosto da lentidão da cozinha, mas sou uma cozinheira sazonal. Prefiro os ingredientes de Verão: haverá alguma coisa melhor na vida do que figos frescos com presunto? 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

«Que Nome gostaria de lhe dar?» (Michela Murgia)

 - [30.º Dia; após a «Onda de Calor», dias abaixo dos 30 graus, até agora...; R. pensa em regressar a Lx...]; [de momento, um livro de contos, da autora de «A acabadora», 2009 - RECORTE - AQUI];

RECORTE(s):
  [...] Tinha espreitado a folha sobre a mesa, e a indicação do diagnóstico estava escrita em cima, lapidar, algo que dez anos antes apenas teria sido uma sentença de morte rápida. Carcinoma renal no estádio IV.
    [...] de repente, tomou consciência do facto de o médico nunca ter nomeado a doença.
     - A minha irmã está ali fora, doutor, e tenho outras pessoas amigas. Quando me perguntarem o que tenho, o que lhe devo chamar? Não consigo dizer o que está escrito na folha.
   Fitaram-se. O médico suspirou, em seguida descontraiu os ombros, encostando-se à cadeira. Atrás da barreira de plástico transparente, o seu corpo parecia não ter espessura, como nas fotografias comprimidas em molduras de grampos. Quando falou, a ilusão da bidimensionalidade desapareceu.
     - Que nome gostaria de lhe dar? [...]

      Michela Murgia (1972-2023), «Expressão intraduzível» [conto de] O sentido da náusea [2023], 2025, pp. 14-15

domingo, 19 de julho de 2026

Rugido, 25.º dia + «O menino» (Aramburu)

  - domingo, 25.º dia da 3.ª Est.a de 26; o Clã J. J. já regressou a Casa...; voltarão dentro de 10, 12 dias, para as férias, finalmente...; ontem ida rápida ao Chão da General, para J. verificar «aonde vai o Corte das A.es; 

- Época Alta na Zmab e, no «AL-ZT», «(re)povoado», as «churrasqueiras de Varanda» estão na moda...; [R. vai ter que «desarvorar»....];

- lentamente tem avançado a leitura de «O Menino» [na p.188, de 219];

RECORTE(s):

    Dentro do possível, na distribuição de sepulturas o menino teve sorte. Mariaje apressa-se a corrigir o pai. Deves querer dizer que quem teve sorte foste tu. E Nicasio, depois de pensar uns instantes nisso, não encontra réplica possível e dá razão à filha.
     O caso é que calhou ao Nuco um nicho na terceira fila a contar do solo, junto de um dos  degraus da escada 

   Fernando Aramburu, O menino, 2025, p. 17

terça-feira, 7 de julho de 2026

Rugido, 13.º dia + «trezentos gramas de história» (Filipa Martins)

 - [só hoje concluída a narrativa de F. M.; na Zmab, a Onda de Calor durou «só» cinco dias...]

RECORTE(s):

    [...] Esperava alguma privacidade, mas o que conheço de mais parecido com a sala de consulta do  arquivo é a cantina do hospital. Encolho-me entre leitores que lambem os dedos antes de virar a página, dá-me nojo esta proximidade entre saliva e informação. Sinto um cotovelo a roçagar-me o casaco quando os documentos chegam, há quem espirre a centímetros, sentado ao meu lado o homem puxa o catarro e cospe para o lenço.[...]. 
    A pasta chega e não é pesada, talvez uns trezentos gramas de história. Todos me olham, até aqueles que não se viram para mim sei que me perscrutam - [...] questionam porque esperei meses e agora retardo o momento, porque não abro finalmente a pasta para confirmar que o Estado sempre soube mais sobre a minha mãe do que eu. [...]

                                 Filipa Martins, No meu fim está o meu começo, p. 163

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Rugido + «era assim que todos nasciam» (Filipa Martins)

 - 1.º Dia da 3.ª E. no Rugido - Pausa nas «Ondas de Calor»; Largo tranquilo, pois a Padaria ainda não (re)abriu...;

- RECORTE(s) do livro de Filipa Martins (uma das 3 aquis. da feira, na manhã de  domingo, 14); [atingida a p. 113 de 230]:

    [...] Eu tinha seis anos quando ajudei uma criança a nascer. Um rapaz, a mãe chamou-lhe Manuel. Era eu, a mãe e uma parteira cega, debruçadas sobre um alguidar [...]. A mãe estava de cócoras, a respirar com urros secos e a parteira puxava por uns pés pequeninos e arroxeados, dizendo: «Não virou, o malvado.»  Fazia o gesto das lavadeiras a arrancarem da água os lençóis encharcados, os tendões dos braços e do pescoço aflorados como raízes velhas pelo esforço. A mim, cabia-me torcer um desperdício de flanela e limpar o rosto da mãe do suor, mas julgo que levei a maior parte do tempo paralisada pelo que via. [...] Afinal era assim que todos nasciam, nus e enfiados em sangue e esterco? [...]

                                 Filipa Martins, No meu fim está o meu começo, p. 20

segunda-feira, 15 de junho de 2026

O Império do pequeno ecrã

 - «longínquo» Prof.al da Área, D. não perde ocasião para observar e/ou avaliar...

- cerca das 10 e 30, Quiosque da Esplanada do Jardim cá do Bairro..; balcão repleto com a louça devolvida por anteriores...; sentada do lado de fora, ao Sol, «agarrada» ao TLL, quando inquirida sobre a ausência de oficiante, veio atender com «má ou ofendida Cara» e as exactas palavras:

- «não sou obrigada a estar de pé, à espera dos clientes»...;

- Claro que lhe deu logo razão, não havia mais que conversar, não é?

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Aquela altura do ano... (A. J. Gonçalves)

 [reabre o PERI] 
- fechar as janelas, na Noitada de S. António (amanhã) - por causa do cheiro «esturro-carbo-petrolino» e do barulho «turbo-alcoólico»... - ; restos de cheiro haverá no matinal passeio de dia 13...; Alfama, por António Jorge Gonçalves - DAQUI